Por mais de um século, os paleontólogos argumentaram.
As primeiras cobras se enterraram como vermes? Eles deslizaram pelas ondas? Ou eles rastejaram pela terra entre a serapilheira?
A evidência era escassa. Existiam menos de dez esqueletos de cobras antigas. Foi um jogo de adivinhação.
Até agora.
Um fóssil encontrado no Brasil está mudando a conversa. O espécime, denominado Tametara mirim, viveu há cerca de 80 milhões de anos no Cretáceo Superior. Foi descoberto em 2022 perto de Presidente Prudente, em São Paulo. Este é o primeiro esqueleto articulado de cobra já encontrado no Brasil. É um dos poucos fósseis tridimensionais de cobras do Mesozóico em qualquer lugar da Terra.
A preservação é extraordinária.
“As cobras são essencialmente lagartos altamente modificados. Em algum momento da era dos dinossauros, uma linhagem de lagartos perdeu seus membros e esticou o corpo.” – Dr.
Mas a questão permanece: por quê?
Por que Tametara Mirim aponta para escavação
Roy Ebel, do Museums Victoria Research Institute, liderou o estudo. Sua equipe usou tomografias computadorizadas de alta resolução no crânio. Eles reconstruíram o cérebro, os nervos cranianos e o ouvido interno. Esta é a imagem mais detalhada do cérebro de uma cobra-tronco que já vimos.
Os resultados foram surpreendentes.
O formato do cérebro era diferente de qualquer outra cobra antiga. Ou qualquer moderno.
Mas a verdadeira prova veio da densidade óssea.
Os escavadores de cabeça precisam de crânios fortes. O esforço de cavar na terra é intenso. Assim, eles desenvolvem ossos mais densos e grossos no teto do crânio. Essa característica aparece em muitos lagartos escavadores.
Tametara mirim tinha essa característica.
Ebel observou que o fóssil se enquadra entre os escavadores de cabeça mais especializados que existem atualmente. Não generalistas. Especialistas.
A tomografia cerebral confirmou isso. Os centros visuais foram reduzidos. O prosencéfalo foi simplificado. Isso aponta para uma vida subterrânea. Escuro. Apertado. Escondido.
Como as cobras evoluíram: uma história multitrack
Aqui está a reviravolta.
Estudos anteriores analisaram a Dinilysia patagonica, uma cobra da Argentina. Esse fóssil mostrou o oposto. Sua estrutura óssea e cérebro sugeriam que ele morava na superfície. Não escavação.
Isso cria um problema para as velhas teorias.
Uma teoria dizia que todas as cobras começaram como nadadoras.
Outro disse que tudo começou como rastreadores de superfície.
Um terceiro disse que todos começaram como escavadores.
Nenhum deles se encaixa.
As duas cobras mais antigas que podemos estudar tinham cérebros mais diferentes entre si do que muitas cobras vivas hoje.
Tametara mirim estava sintonizada para o escuro. Dinilysia patagonica foi moldada para o espaço aberto.
No início da história das cobras, elas já sentiam o mundo de forma diferente.
Isto sugere que as cobras não descendem de um único ancestral com um estilo de vida fixo. Em vez disso, as primeiras linhagens se ramificaram rapidamente. Alguns foram para a clandestinidade. Alguns permaneceram na superfície. Alguns podem ter ido para a água.
Isso aconteceu ao longo de dezenas de milhões de anos. Diferentes grupos tentaram diferentes experimentos em evolução. Alguns tiveram sucesso. Outros morreram.
O resultado são mais de 4.200 espécies de cobras que vemos hoje.
Onde encontrar fósseis de cobras antigas
A maior parte disso vem de lugares muito específicos. Brasil. Argentina. As rochas sedimentares do Cretáceo Superior são a chave.
O exemplar Tametara mirim foi encontrado em uma pedreira. Foi necessária uma extração cuidadosa. A preservação permitiu aos pesquisadores ver microestruturas no osso.
Esses detalhes são importantes. Eles fornecem dados quantitativos. Não apenas opiniões.
O estudo foi publicado na Nature em 22 de julho de 206. Os autores concluíram que as origens das cobras não eram um caminho único. Foram experimentos paralelos.
Amplitude ecológica. Foi isso que impulsionou a mudança.
Então, as primeiras cobras se enterraram? Sim.
Eles nadaram? Provavelmente alguns o fizeram.
Eles rastejaram? Sim.
A resposta é todas as três.
E o debate está longe de terminar. Temos apenas um punhado desses fósseis. Ainda há tanta coisa que não sabemos.
O terreno está mudando.


















